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MERGULHO TÉCNICO
Sua breve história. Onde estamos. Como evoluímos.
Escrever sobre a história do mergulho técnico é um desafio, pois ela é muito recente e é encarada como “uma evolução do mergulho recreativo”.
MERGULHO TÉCNICO
Sua breve história. Onde estamos. Como evoluímos.
Escrever sobre a história do mergulho técnico é um desafio, pois ela é muito recente e é encarada como “uma evolução do mergulho recreativo”.

O mergulho recreativo teve dois grandes “fundadores”. Um deles foi o grupo de cientistas e engenheiros comandado por Jacques-Yves Cousteau, que criou o “Aqualung” no final da década de 1940, aparelhagem que todos conhecemos nos dias atuais como SCUBA (Self Contained Underwater Breathing Apparatus), composta pelo conjunto de cilindro de gás, regulador e colete equilibrador. O segundo grande grupo “fundador” foi o dos militares, que dominavam a técnica de uso do Aqualung e passaram a formar civis na prática da atividade de mergulho autônomo. Com o grande crescimento da atividade mundial entre os anos 1960 e 1980, o mergulho recreativo tornou-se uma grande indústria composta por agências de treinamento, como a CMAS na Europa e a NAUI nos Estados Unidos (para citar as duas “sexagenárias”), além de outras gigantes como a PADI e a SSI, e diversas outras que surgiram a partir delas. Além disso, foram fundados vários fabricantes de equipamentos, como a Cressi e a Mares na Europa (que já fabricavam equipamentos para a pesca submarina nos anos 1930 e também “evoluíram” para a fabricação de equipamentos de respiração autônoma). Além destas, podemos citar Scubapro, Dacor, Oceanic, Poseidon e tantas outras, sem contar as marcas asiáticas que nascem a cada dia.
Instrutores independentes formados pelos militares e por essas agências de treinamento, com a possibilidade de vender equipamentos, começaram a montar suas empresas, que logo viraram o que conhecemos como Dive Centers (ou Centros de Mergulho), passando então a formar mergulhadores, vender equipamentos e organizar viagens para seus clientes. Na outra ponta, nos destinos beira-mar, Dive Centers adaptaram e/ou construíram embarcações de mergulho, estações de recarga e locais de locação de cilindros para receber esses clientes em todo o mundo, configurando todo o universo do mergulho recreativo conhecido hoje.
Podemos afirmar que no final da década de 1970, com o aumento da tecnologia dos equipamentos, o maior conhecimento sobre o funcionamento de diferentes gases no nosso organismo (mais uma vez creditado ao conhecimento de forças militares e do mercado de petróleo) e a saga humana por buscar lugares remotos para mergulhar — como naufrágios profundos, cavernas e paredes subaquáticas no mundo todo —, os mergulhadores recreativos começaram a ultrapassar as profundidades e os tempos não descompressivos estipulados pelas tabelas da Marinha Americana e suas derivadas. Com isso, os acidentes começaram a acontecer, sendo diversos deles fatais.
Desses pioneiros nos mergulhos “avançados” nasceu a ideia de classificar esse tipo de mergulho, que era bem mais agressivo e vinha causando muitos acidentes. Então, nos anos 1980, um grande trabalho foi organizado por mergulhadores de cavernas na Flórida (EUA), encabeçado por Sheck Exley, que publicou o Livreto Azul (Basic Cave Dive – a Blue Print Guide for Survival), analisando os principais motivos de tantas mortes em mergulhos em cavernas e buscando orientar os novos praticantes sobre como sobreviver naquele ambiente por meio de técnicas e do uso de equipamentos mais seguros.
Os mergulhos profundos continuavam a ocorrer na costa leste americana e em outros pontos da Europa, da mesma forma ocasionando muitas mortes. Agências de treinamento menores e locais, como a IANTD (primeira a organizar cursos de mergulho com Nitrox e em cavernas) e a NAUI (primeira das grandes agências a reconhecer as necessidades especiais para esse tipo de mergulho “avançado e agressivo”, criando a sua Divisão de Mergulho Técnico, a NAUITEC), também começaram a analisar as principais causas de acidentes em mergulhos profundos, organizando táticas e divulgando conhecimentos de como evitá-los.
Nesse meio tempo, Michael Menduno, então editor de uma respeitada revista norte-americana chamada AcquaCorps, preocupado com o número de incidentes e acidentes provocados pelo comportamento desses mergulhadores “avançados”, criou uma série de conferências para discutir esses mergulhos polêmicos. Emprestando um termo que vinha da escalada em montanhismo, cunhou a expressão “MERGULHO TÉCNICO” para definir as atividades realizadas além dos limites do mergulho recreativo, as quais lançam mão de técnicas, planejamento e equipamentos diferenciados para executar com mais segurança mergulhos tão desafiadores.
Vejam como tudo isso é muito recente: a indústria de equipamentos se envolve e cria novos aparatos; agências bem centradas no mergulho recreativo, como NAUI, PADI e SSI, criam suas divisões de mergulho técnico; e novas agências nascem especialmente para tratar do tema, como GUE, UTD, TDI e RAID, entre outras. Da mesma forma, novos fabricantes de equipamentos, como Halcyon e Dive Rite, somam-se para ajustar e definir o que conhecemos hoje como mergulho técnico.
A melhor e mais simples definição de mergulho técnico é “todo aquele mergulho com teto”. Esse teto pode ser físico (o mergulho de penetração fora da área de luz em naufrágios e os mergulhos em caverna) ou fisiológico (todo aquele mergulho realizado em tempos e profundidades fora dos limites não descompressivos das tabelas). Para ambas as atividades, há técnicas e equipamentos específicos para garantir a segurança dos praticantes.
Para fazer mergulho técnico, é preciso ter treinamento e experiência prévios. No mundo recreativo — e por caminhos similares no mergulho militar e de segurança pública —, o candidato deve ser um mergulhador avançado, preferencialmente master, ou seja, que já possua conhecimentos aprofundados em mergulhos noturnos, de baixa visibilidade e de orientação subaquática, além de domínio superior em teoria do mergulho (especialmente intoxicações gasosas e fisiologia da descompressão) e conhecimentos modernos em primeiros socorros e resgate.
Além disso, deve possuir um número mínimo de mergulhos logados — o que pode variar um pouco entre as agências de treinamento, mas normalmente exige cerca de 50 mergulhos para se iniciar no caminho técnico. O mais importante, sem dúvida, é ter excelente controle de flutuabilidade, bom trim (posicionamento horizontal na maior parte do tempo submerso), domínio das técnicas de deslocamento (que incluem a pernada de sapo e suas variações, o “helicóptero” e o nado a ré), além da disposição para investir em equipamentos diferenciados e de grande qualidade. Afinal, em mergulhos profundos (abaixo dos 40 metros) e de grandes penetrações (superiores a 500 metros para dentro de uma caverna, por exemplo), nada pode falhar.
Conhecidos os pré-requisitos, é hora de aprender. O caminho correto começa por um curso de Introdução ao Mergulho Técnico (Intro to Tech), onde não há teto algum (nem fisiológico — sem descompressão obrigatória —, nem físico — sem penetrações em naufrágios ou cavernas).
Ele é conhecido como o “curso básico do mergulho técnico”, pois o aluno aprenderá a utilizar de forma eficiente os equipamentos técnicos (cilindros e reguladores duplos, deco marker, carretilhas, cilindros de stage, entre outros), afinará seus fundamentos (respiração, flutuabilidade, trim e técnicas de deslocamento), além de aprimorar o trabalho em equipe e as subidas simuladas.
Após passar por essa adaptação, o mergulhador poderá escolher entre três caminhos: os mergulhos descompressivos profundos, os mergulhos em cavernas e os mergulhos de penetração em naufrágios. Muitas vezes, é possível combinar esses caminhos — realizando, por exemplo, mergulhos em naufrágios que exijam profundidades e tempos descompressivos, ou em ambientes de caverna.
Para falarmos apenas de mergulho descompressivo neste artigo, o passo seguinte é o curso de Mergulhador de Técnicas Descompressivas, seguido por mergulhos mais profundos que 40 metros, nos quais utilizamos misturas trimix (que incluem hélio), até chegar aos mergulhos de exposição extrema, onde a mistura de fundo é hipóxica (com menos de 16% de oxigênio). Em cada nível (normalmente limitados aos 40m, depois aos 61m e, em seguida, abaixo dessa cota), aprende-se a agregar mais equipamentos, especialmente aqueles que transportam as misturas para acelerar a descompressão.
Um novo mundo e um novo caminho para serem levados muito a sério, trazendo novos conhecimentos e desafios fascinantes. Nas próximas edições, trataremos com mais detalhes de todos esses caminhos e ambientes que podem ser explorados através desta ferramenta chamada mergulho técnico. ■
Reinaldo Alberti
Instrutor Examinador de Mergulho Técnico NAUITEC. Proprietário do Dive Center Acquanauta Mergulho de Curitiba. Organizador de viagens para mergulho técnico. Consultor para vendas de equipamentos. Especialista em equipamentos Halcyon Dive Systems.